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Rev. Fabiano

Rev. Fabiano

Quando ingressei como membro da Obra em 1980, sempre ouvia contar as histórias e feitos dos nossos primeiros pais, dos que foram pioneiros na Obra da Restauração, dentre os quais destaco o Pr. Magno Guanaes Simões e o Pr. Elmir Guimarães Maia. Não tive o privilégio de conhecer o primeiro pessoalmente, mas apenas o segundo, no ano de 1984. Aquele encontro foi algo surpreendente e decisivo para mim. Naquela época, já estava acostumado a ouvir muitas críticas quanto à falta de preparação teológica dos pastores da Obra, e muitas delas infelizmente procedentes, olhando de uma perspectiva meramente humana, e isto produzia certo recalque em mim, até mesmo um sentimento de vergonha. Porém, naquela tarde memorável, o encontro com o Pr. Elmir Guimarães Maia lançou certa luz e esperança na estrada que tinha de trilhar em direção a um futuro desconhecido que me estava reservado.

Naquela tarde providencial, Pr. Guimarães Maia estava no escritório da OPIMOBRART em Acari, Rio de Janeiro, e me recebeu com um sorriso característico e cativante. Já tinham me contado que nossos pioneiros tiveram a oportunidade de estudar teologia nos melhores seminários batistas, principalmente numa época em que esses seminários representavam o que de melhor se tinha em termos de educação teológica. Todas as vezes em que nos acusavam de praticar doutrinas ultrapassadas por causa de falta de instrução em hermenêutica ou por não sabermos fazer a exegese dos textos visto que prescindíamos do conhecimento das línguas originais da Bíblia, eu ficava sem saber o que dizer.

Todavia, o encontro com o Pr. Guimarães Maia foi muito importante para mim, pois estava diante de um pastor da Obra, um fundador, de uma educação teológica até então jamais vista por mim na Obra. Atrás dele, estava uma estante repleta de livros de grande envergadura dentro do cenário evangélico contemporâneo e de outros séculos. Com grande destaque, vi atrás dele grandes comentários bíblicos, como o de John Peter Lange, traduzido do alemão para o inglês, o de Adam Clarke na versão espanhola, e muitos outros que me deixaram abismado. Pensei comigo que “a Obra não poderia ter surgido de ignorância bíblico-teológica. Talvez isto fosse apenas produto de preconceito e ressentimento!”

Em seguida, fui à questão mais pitoresca e intrigante: “E o uso do véu, Pr. Guimarães?” Então, ele pegou a Bíblia e o volume do comentário de Lange sobre 1 e 2Coríntios em inglês e fez uma breve exposição verso por verso, mostrando como até mesmo um comentário bíblico genuinamente exegético não escrito por um pastor da Obra pode ajudar a analisar o texto. Pena que eu pude guardar apenas a linha de argumentação para futuras pesquisas e aprofundamento numa das questões mais polêmicas e controvertidas no meio evangélico. Entretanto, as dúvidas principais sobre a atualidade do uso do véu pelos membros do sexo feminino das igrejas contemporâneas foram esclarecidas naquela palestra.

Por fim, o Pr. Guimarães Maia fechou nossa palestra brindando-me com uma exposição de Tiago 1.12-15 que jamais me esqueci. Hermenêutica, exegese e homilética numa impregnação mútua, visto que, além de intérprete, ele é um exímio pregador da Palavra de Deus. Assim, depois de situar o texto em seu contexto e co-texto, ele fez uma análise minuciosa da perícope (parágrafo), segmentando as orações e realçando detalhes que me impressionaram grandemente. Além disso, fez ilustrações extraídas do Antigo Testamento, como o pecado de Davi, que clarificavam cada etapa do processo de tentação descrito sinteticamente por Tiago. Eu não tinha prestado atenção antes a tudo isso, ou melhor, não possuía as lentes de análise que estavam disponíveis àquele exegeta perito que estava com a Bíblia aberta diante de mim, sempre com foco no texto grego, que ele conhecia muito bem, como demonstrou na prática. Desse encontro, eu concluí: “Não faz sentido acusar nossos pioneiros de ignorância teológica, histórica, hermenêutica ou exegética, diante do que estou vendo. Pr. Guimarães Maia é uma sumidade!” Ele se despediu de mim com uma oração num ambiente que estava impregnado da presença de Deus, a quem ele pediu que abençoasse meu futuro. Confesso que saí daquele escritório com um forte senso de que nada sabia diante de tanta erudição do Pr. Maia e vendo o grande desafio que tinha pela frente. Ainda bem que ele me recomendou à maravilhosa e miraculosa graça de Deus, que é poderosa para fazer tudo infinitamente mais do que pedimos ou pensamos!

Ao me despedir dele, ele me deu muitos bons conselhos. Incentivou-me a continuar meus estudos e, sempre que possível, fazer o que ele fez depois de obter sua formação teológica formal. Orientou-me a adquirir bons comentários bíblicos de caráter erudito e conservador e lê-los, o que equivale a subir nos ombros de gigantes e diminuir muito trabalho na tarefa de interpretação bíblica. Também, orientou-me a obter livros de educação teológica que ensinam ferramentas de análise do texto bíblico (hermenêutica e exegese) e boas obras de teologia bíblica e sistemática, história bíblica e da igreja, línguas originais, etc. Esse foi um direcionamento que revolucionou minha maneira de ver o que de literatura já estava disponível no mercado evangélico, principalmente em inglês ainda, língua que eu já dominava, e mergulhei fundo. Minha biblioteca pessoal cresceu de forma assustadora e me ajudou para minha jornada ministerial que começou em 18/04/1987! Dou graças a Deus por aquele encontro com o Pr. Dr. Elmir Guimarães Maia.

Uns vinte anos mais tarde, por volta de 2004, eu reencontrei o Pr. Elmir Guimarães Maia na casa do Pr. Dr. Valter Miranda de Oliveira. Nessa ocasião tive a oportunidade de conversar com ele e mostrar o meu avanço nos estudos bíblicos, principalmente no campo das línguas originais da Bíblia. Mostrei a obra gigantesca do Dr. Bruce K. Waltke, em inglês, que estava prestes a ser lançada em português pela Editora Cristã de São Paulo, Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico, que saiu em 2006 com suas 784 páginas. Tive a honra de ser o organizador, o tradutor principal e um dos revisores desta magnífica obra que por muito tempo será padrão para os estudos de sintaxe do hebraico bíblico em nível intermediário e avançado em língua portuguesa. Pude também informar-lhe que havia estudado Hebraico Moderno na Universidade Federal do Rio de Janeiro e que estava fazendo Mestrado em Antigo Testamento no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, do Instituto Presbiteriano Mackenzie de São Paulo. Após analisar-me detidamente em nossa palestra, surpreendeu-me a humildade do Pr. Guimarães Maia, confessando-me que, na disciplina de hebraico bíblico, ele poderia ser meu aluno. Jamais pensei em ouvir tal coisa de um homem de Deus da envergadura do Dr. Guimarães Maia, mas ele disse isso por conta do estudo específico, dedicado e contínuo das línguas originais da Bíblia que venho fazendo ao longo desses já 28 anos de peregrinação cristã.

Foram em meus estudos bíblicos posteriores que vim a aprender com clareza que a hermenêutica é disciplina que prescreve os princípios de interpretação dos textos da Bíblia reunindo-os, por exemplo, com base em seus respectivos gêneros literários. Portanto, ela instrui a interpretação e narrativas, poesia, Torah (lei), meshalim (literatura sapiencial – ou de sabedoria, como Jó, Provérbios e Eclesiastes), profecia, evangelhos, atos, epístolas e Apocalipse, sendo bem genérico. A exegese se vale dos princípios postulados pela hermenêutica para fazer a interpretação dos textos. A relação entre a hermenêutica e a exegese, escrevendo de uma perspectiva reformada, é a mesma que existe entre a teoria e a prática.

No estudo da hermenêutica aprendemos como interpretar. Ao fazermos exegese colocamos em prática os princípios aprendidos em hermenêutica e saímos em busca do sentido do texto que pretendemos entender. Por exemplo, se o gênero do texto bíblico é narrativo, então a hermenêutica nos ensina que há uma série de questões que devem ser levadas em conta para que o sentido do texto seja alcançado corretamente. Temos de considerar e analisar a estrutura (se há uso de quiasmos, muito comum desde Gênesis), personagens, narrador, narratário, diegese e discurso narrativo, sintaxe da diegese, tempo, voz e focalização, como os constituintes mais expressivos do texto narrativo.

Em poesia, estudamos os percursos do passar, repassar e externar do mundo do eu lírico do poeta. A poesia surge independente dos elementos objetivos do mundo real que o cerca, porém, reflete em sua forma final uma produção resultante dos efeitos deste mundo sobre sua alma, sobre sua interioridade.

“Caso um poema lírico seja escrito valendo-se de elementos narrativos e objetivos do mundo exterior do poeta, isto serve apenas como um pretexto para que ele expresse um significado apenas simbólico-imaginário do reflexo desse mundo sobre seu estado de alma”[1].

Desta forma, está correta a afirmação de Lotz:

“O verso é o uso da linguagem mais idiossincrático e está sujeito à manipulação individual mais extrema”. [2]

Por conseguinte, ao estudarmos poesia bíblica, devemos estar atentos à forma, principalmente ao recurso muito utilizado do paralelismo, que se torna uma chave para entendermos à forma poética dos escritos bíblicos. O eu lírico extravasa os impactos do mundo exterior sobre sua interioridade. Muito mais frequente que na prosa, ele manipula a linguagem para que ela seja uma fiel expressão do que se passa dentro dele. Até ele mesmo se surpreende com sua produção literária e artística que as mais das vezes o deixa meio embevecido, preso ao fato da criação das formas inusitadas que a poesia exige. Destaque-se, acima de tudo, o forte impacto da inspiração divina sobre a alma desse poeta que singulariza esse modo grandemente idiossincrático do uso da linguagem. Ele dialoga com Deus, consigo mesmo, com seus semelhantes e com sua congregação, de modo que a produção final está repleta de seus próprios sentimentos. Essa forma idiossincrática de produção textual é sobremaneira criativa e não poderia ser diferente. Ela não pode prescindir do uso exuberante de formas de expressão inusitadas, de figuras de palavras e de pensamento em grau altamente elevado. É certo que tanto a poesia quanto os textos em prosa estão repletos dessa forma de verbalização idiossincrática, mas a poesia a usa de modo preferencial por conta de sua própria natureza. O eu lírico se identifica com este tipo de uso da linguagem. Portanto, dispensa dizer que a forma poética merece a devida atenção por parte do intérprete.

A propósito, o presente ensaio sobre o uso do véu é uma análise de um texto pertencente ao gênero epistolar. Trata-se da análise de um texto predominantemente escrito em prosa. Ele é uma reflexão e aprofundamento sobre a palestra que tive com o Pr. Elmir Guimarães Maia, aludida acima, porém, teve mesmo como elemento impulsionador e catalítico um desafio do Pr. Silas Malafaia que recebi num debate na Rádio 93 FM. Em 1999, eu estava participando de um debate com ele e, sem que ele me conhecesse, surgiu por parte do moderador a proposta inusitada de termos um debate sobre o uso do véu na igreja hoje. Eu iria defender a tese da contemporaneidade do uso do véu pelos membros do sexo feminino da igreja. Não sei que posição ele tomaria, uma vez que o debate apenas abordaria a questão “no campo das idéias” e preso ao que o apóstolo Paulo ensinou a esse respeito. O ônus maior pesava sobre mim, ao que parecia, de ter de apresentar argumentos convincentes em favor da contemporaneidade do uso do véu pelas mulheres nas igrejas evangélicas. Porém, infelizmente, no dia do debate o Pr. Silas Malafaia telefonou para a emissora e justificando que não poderia estar presente naquele debate por motivo de força maior. A expectativa era enorme da parte dos ouvintes, mas lamentavelmente esse debate não se concretizou. Foi adiado sine die e até hoje não se realizou.

Todavia, o trabalho de pesquisa que escrevi sobre 1Co 11.1-16 na época foi publicado no ano seguinte, em 2000, e agora eu disponibilizo a todos os que acessam o site da APOIORT para que possam lê-lo e considerá-lo. Agradeço de coração ao Pr. Eliélberth Falcão, presidente da APOIORT, meu grande amigo e cooperador no Reino de Deus, pela oportunidade e incentivo – como também a muitíssima paciência -, de disponibilizar esses ensaios com toda a liberdade de expressão de meu pensamento teológico, que sempre procuro construir com base na mais sólida exegese, usando todos os valiosos instrumentos que me estão disponíveis.

O texto original que escrevi, na presente versão revisada, aparece com vários acréscimos de elementos que julguei essenciais e supressões de outros que julguei não tão importantes. Além disso, depois de ler outros autores que não constaram de minha pesquisa original, e que considerei darem uma contribuição positiva para a elucidação de certos aspectos do texto, ainda que deles discorde em alguns pontos, pude enriquecer a abordagem deste tema tão polêmico e crucial. O leitor só terá a ganhar se lê-lo para considerar e ponderar com reflexão e espírito sereno. Tento ler o apóstolo a partir de seu próprio contexto histórico e, em seguida, empreendo fazer uma leitura do texto para nossos dias. Com o texto grego aberto, proponho-me responder às perguntas: 1) O que o apóstolo quis dizer para os seus leitores originais e o que o motivou a escrever o presente texto? 2) Será que as exigências feitas pelo apóstolo Paulo não estavam condicionadas culturalmente? 3) Caso a pergunta 2 tenha resposta positiva, o texto apenas diz respeito a regulamentações válidas tão somente para aquele contexto específico, não sendo uma questão relevante em nossos dias, mas, se for negativa, então cumpre-nos saber o que fazer com as exigências do texto na igreja evangélica contemporânea.

A decisão, como sempre, recai sobre cada um de nós individualmente diante deste e de outros textos da Escritura. A complicação para nós reside no fato de termos de justificar perante nossa consciência e perante Deus naquele grande dia a nossa posição e o que nos levou a adotá-la. Seremos confrontados, para todos os efeitos práticos, não com o que disseram que o texto diz, mas com o que de fato Deus quis dizer através dele. Isto nós ouviremos da boca de Deus. Poderemos estar certos ou errados. Portanto, a busca da descoberta da intenção do autor, que é por sua vez o reflexo unívoco e inequívoco da intenção do Espírito Santo que o inspirou, não pode ser uma questão irrelevante para nós no que diz respeito a qualquer texto da Escritura. Como este é um dos textos mais polêmicos na história da interpretação cristã das Escrituras, meu convite ao leitor é para que reconsideremos mais uma vez o que o apóstolo Paulo diz em 1Co 11.1-16, visto que este texto também carrega consigo fortes implicações sobre outras questões polêmicas, como, por exemplo, a ordenação feminina. Nossas práticas contemporâneas não justificam nossa interpretação das Escrituras, mas, ao contrário, as Escrituras é que devem justificar nossas práticas enquanto igreja. Será que o que praticamos hoje tem pleno respaldo das Escrituras ou estamos impondo nossas práticas às Escrituras, a despeito do que ela venha a nos ensinar? Urge-nos responder a todas estas questões.

Não obstante, precisamos deixar clara nossa posição de que o uso do véu pelas mulheres da igreja jamais foi divisado por nós dentro de uma perspectiva soteriológica estrita, como algo imprescindível à salvação, haja vista nossa posição explicitamente reformada no tocante ao posicionamento soteriológico. De fato, esta questão tem mais a ver com um posicionamento pós-soteriológico, como algo que deve ser decidido pelos salvos, coletiva ou individualmente. Se minha análise estiver correta, então a não observação do princípio bíblico torna-se desobediência e afeta a comunidade cristã local que decide pela não observação do ensino bíblico, ou membros cristãos individuais, apenas em termos de consciência, posicionamento diante da autoridade da Escritura e, em última análise, no que se refere à complexa questão do galardão dos eleitos. Se minha análise e a de outros que comigo concordam estiver errada, então, pelo menos tivemos a oportunidade de apresentar uma outra perspectiva de um texto do NT que nada tem a ver com nossa vivência cristã contemporânea. Pelo menos, nossa exegese nos dará a desculpa diante de Deus de que erramos por excesso em face ao nosso temor de não ter dado apreço a uma pequena porção do cânon do NT que, na contramão da história, quase toda igreja havia desprezado. Que o Grande Juiz nos tenha por escusados por pecarmos por excesso de temor à autoridade de Sua Palavra.

Rev. Fabiano Ferreira

Filadélfia, Pensilvânia, EUA

Inverno de 2009.


[1] Silva, Vitor E. A., Teoria da Literatura, Coimbra, Portugal: Livraria Almedina, p. 582-596.

[2] O’Connor, M. Hebrew Verse Structure, Winona Lake, Indiana: Eisenbrauns, 1997. p. 13.

25
mai

Por que não sou Arminiano? Parte2

   Postado por: Daniel Alves Pena

Divulgação

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(Estudo feito no Colégio de Pastores na Obra da Restauração de Tudo (1) – Abril/2003)

Neste segundo artigo, exponho a segunda razão que me distanciou definitivamente do arminianismo. O fato é que Deus, em todas as épocas, “precisou” de homens que nutriam uma correta perspectiva dele, de si mesmos e de seus semelhantes. Aliás, este é o alvo supremo da vida cristã e a meta da verdadeira espiritualidade. Homens que viam a Deus por uma correta perspectiva teológica, enxergando-o pela ótica da Escritura: um Deus infinito, soberano, onipotente, onisciente, onipresente, que rege o seu mundo criado com sabedoria infinita e que dispõe de meios eficazes de antemão planejados para levar a história ao fim que ele mesmo planejou, agindo sempre segundo o conselho de sua santa vontade.

Homens que se vejam como o grande apóstolo Paulo – e nesta santa fileira podemos colocar Lutero, Calvino, Jonathan Edwards, Matthew Poole, John Owen, John Gill, C. H. Spurgeon, D. M. Lloyd-Jones, Gerstner, R. C. Sproul, etc., e quem sabe eu e você, a história dirá -, que se considerava o mínimo entre os santos, o principal dos pecadores, exemplo daqueles que haveriam de crer em Deus, um verdadeiro referencial para os eleitos de Deus contemporâneos seus e seus sucessores. Que também via os homens por uma correta perspectiva espiritual, pela ótica da doutrina acerca do homem revelada na Escritura.

Para o apóstolo Paulo, os homens eram salvos ou não. Os salvos eram os eleitos de Deus, predestinados para filhos de adoção por Jesus Cristo, chamados eficazmente pelo evangelho, ressuscitados de suas sepulturas espirituais pela ação miraculosa do Deus triúno para tomarem assento nos lugares celestiais em Cristo, marcados para entrar na história humana como ovelhas do Pai e do Filho, resgatados pelo sacrifício expiatório, propiciatório e substitutivo do Filho na cruz do Calvário e regenerados pelo Espírito Santo em sua vocação eficaz e irresistível, e selados pelo mesmo Espírito para o dia da redenção. Sua mensagem era: Deus salva pecadores!

Os outros homens, segundo seu evangelho, eram eleitos ou reprovados, o que o motivava a pregar intensamente o evangelho a fim de ser o instrumento de Deus para a descoberta dos eleitos, que Deus soberanamente ia colocando em seu caminho, dentre os quais podemos citar a vendedora de púrpura Lídia e o carcereiro de Filipos.

Paulo era grato a Deus por ser colaborador de Deus e cooperador de Deus em favor da Senhora Eleita, a Igreja. Era humilde, como não poderia deixar de ser, por ter sido escolhido por Deus para fazer um grande serviço no seu reino, que ele sempre esteve consciente de que não era merecedor. Alegre ele dizia: “Mas Deus me escolheu desde o ventre” e em outro lugar, “Ele nos elegeu antes da fundação do mundo”.

Diferentemente desta visão salutar da Escritura, ilustrada com um máximo exemplo, o do apóstolo Paulo, está a visão de mundo arminiana.

Até pouco tempo, o arminianismo, desde a sua concepção em contraposição ao calvinismo, conviveu com suas inconsistências lógicas internas, quando foi definitivamente levado aos seus extremos lógicos,  2 através de seus proponentes mais aferrados no cenário evangélico canadense e americano, liderados por Clark Pinnock 3 – e já há representantes tupiniquins  4 do arminianismo levado aos seus extremos nesta terra brasili!-, e chegou a ponto de ver Deus com a imagem inversa daquela que é descrita na Escritura, esvaziando todos os seus atributos e criando um “Deus” finito e impotente (ou deus? ou um ídolo?), que nem ao menos sabe o que poderá acontecer no futuro, tendo em vista que há um ser no universo chamado homem, livre, dotado de um “livre-arbítrio”, imprevisível, com ações não causadas e que é uma ameaça ao cumprimento de Suas predições na Escritura, por não permitir que Deus preveja nenhuma de suas ações futuras. Na visão arminiana extremada, que é totalmente humanista e antibíblica, assumindo uma postura quase liberal (no sentido acadêmico e histórico do termo), Deus é rebaixado quase à posição do próprio homem caído, ou talvez um pouco abaixo, e o homem sobe a uma estatura quase do Deus da Bíblia. Esta visão, obviamente, não passa de produto da imaginação do homem caído em seu projeto de autonomismo apóstata, inspirado, como não poderia deixar de ser, pelo arquiinimigo de Deus, que foi o primeiro a desejar essa autonomia rebelde. O autonomismo apóstata só poderia levar à desconstrução 5 da teologia, como já era previsto. De fato, o arminianismo, que enfatiza exageradamente o autonomismo, é a prova mais completa da depravação total do ser humano!

Quando o arminianismo extremado é assumido como visão de mundo e fornece os pressupostos para a análise da Escritura, o homem passa a ocupar o centro das atenções e Deus sai para segundo ou terceiro plano. Os superpoderes que os homens passam a ter são a evidência disso, pois até mesmo os homens não-regenerados que a Bíblia ensina estar mortos em delitos e pecados passam a não mais ser vistos assim, mas são vistos como capazes de ascender aos céus, se quiserem, e até mesmo sair de lá, caso entrem. Isso tudo nada mais é do que aquela antiga heresia que ficou sendo conhecida na história da igreja como pelagianismo 6 ou o seu alomorfe (outra forma), o semi-pelagianismo. De acordo com a visão arminiana, nem Deus pode deter um homem assim tão poderoso, mas tem de ficar sempre de plantão para poder contornar os problemas que o homem cria no universo, que podem até frustrar os seus planos, e forçosamente Ele tem de ficar costurando a história até ver se ele consegue fazer aquilo que antigamente predisse na Escritura, e talvez “impensadamente”, por “não saber” do que o homem era capaz. Na visão da Escritura, todos os problemas que os homens causaram e irão causar, sob insinuação do arquiinimigo de Deus, são conhecidos exaustivamente por Deus e jamais o pegaram ou o pegarão de surpresa, pois Ele é onisciente e sabe para onde a história está indo e jamais perdeu ou perderá o controle de tudo o que acontece no mundo criado, como supõem os arminianos extremados. Mais ainda, a doutrina bíblica da providência divina ensina-nos que tudo está decretado pelo Deus Todo-Poderoso, de modo que não existe algo que ocorra sem ser produto de seu decreto eterno.

Por outro lado, no arraial evangélico, essa visão arminiana constrói os superpastores, os verdadeiros todo-poderosos que ameaçam tomar o lugar de Deus, que determinam, decretam, chamam à realidade as coisas que não são, abençoam, profetizam prosperidade e etc. Em suma, fazem coisas que antigamente só o Deus da Bíblia podia fazer. Quem sofre mais nisso tudo são as ovelhas fiéis e sinceras que são manipuladas por líderes com esse tipo de orientação arminiana extremada, que oferecem para elas ao invés de eleição e segurança eterna e absoluta, uma posição de candidatas ao reino dos céus, ameaçando-as por qualquer motivo, até os mais frívolos e banais, de perderem sua salvação. O arminianismo é um terrorismo espiritual pior do que o encabeçado por Osama bin Laden! É com tristeza profunda que eu constato e registro esta realidade.

Ao ler a biografia de Armínio e suas obras completas, desconfio de sua insanidade. Desconfio também da insanidade do sistema “teológico” que seus discípulos criaram, uma monstruosidade humanista resultante do autonomismo apóstata, que solapa a salutar visão da Escritura que, realmente, desde que humildemente abraçada, pode produzir instrumentos realmente poderosos nas mãos de Deus. A proposta teológica arminiana prefigurava embrionariamente a desconstrução da genuína teologia bíblica e, forçosamente, não poderia fazer outra coisa. Muito embora seus defensores hoje digam que não apóiam o desconstrucionismo, na prática, porém, eles estão desconstruindo toda a sã doutrina. Deus já se encontra desconstruído em seus atributos e, ao que tudo indica, a própria Trindade não poderá escapar das propostas insanas dos arminianos extremados.

Em contrapartida, para você recuperar o fôlego, a teologia bíblica genuína já invadiu as vidas de muitos pecadores na história e produziu santos na Igreja do Deus vivo, a ponto de um desses santos, Jonathan Edwards, poder soar o alerta em sua congregação, mostrando vividamente os perigos que correm os “Pecadores nas mãos de um Deus irado”. (Com ar de zombaria, de repente, os liberais diriam que isso foi um dos “desatinos” do período pré-iluminista!). Ao que me parece, e também creio que a R. C. Sproul, a teologia arminiana e seu parceiro muito chegado, o liberalismo, refletem nada mais nada menos do que a cena de um “Deus (ou deus) nas mãos de pecadores irados!”.

Que Deus nos guarde das idéias perniciosas desses pecadores irados, que estão imergindo muitos cristãos sinceros num verdadeiro buraco negro e a fé cristã num lago de areia movediça. Coisas estranhas estão surgindo por aí afora, como o teísmo libertário, a teologia do processo, a teologia da abertura de Deus (que implica num lógico e total esvaziamento da onisciência de Deus, a partir do qual Deus passa a não conhecer o futuro), a emergência veloz de um neo-gnosticismo gospel e a última novidade – digo última por que eu não sou onisciente como os arminianos extremados, graças a Deus, e não sei o que eles estão aprontando ao redor deste mundo – é que eles já estão trabalhando para esvaziar o inferno 7. Era só o que faltava. Será que eles, no fundo, não estão é com medo de ir para lá? Claro, pelo sistema arminiano extremado, ninguém pode ter certeza absoluta de salvação e de que não vai parar lá. Então, dizem eles agora, vamos construir um túnel “teológico” para resgatar aquelas pobres almas que supõem os adversários que estejam lá (bem baixinho: os calvinistas!) e comecemos a empreitada de diminuir sua temperatura, pois pode ser que paremos lá, ninguém sabe o futuro, nem Deus nem nós! Para os liberais a tarefa foi fácil, bastando desconstruir o inferno e pronto: problema resolvido!

O arminianismo extremado, querido leitor, é, na realidade, a “teologia” da incerteza, da insegurança e da desesperança: um buraco negro de areia movediça. Fortalece o homem e enfraquece ou quase extingue Deus. É antibíblico desde os seus fundamentos e inconsistente com a Escritura. Saiamos de sua região inóspita correndo, aborrecendo até a roupa manchada de suas nódoas miasmáticas e sigamos em direção aos pastos verdejantes da sã doutrina da Escritura, onde ouvimos a voz doce e suave do Bom Pastor, encontramos garantia de vida eterna, como também paz e segurança absolutas por estarmos seguros nas mãos Daquele de quem ninguém pode arrebatar suas ovelhas, porque Ele é maior do que todos e do que tudo. Nas mãos desse Deus verdadeiro, não nas de uma deidade desconstruída por pecadores irados, você pode ser realmente uma bênção!

Reafirmando os ideais da Reforma:

Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solus Christus e Soli Deo Gloria!

* O autor é ministro na Obra da Restauração de Tudo e pastoreia a Igreja em Filadélfia, Pensilvânia, EUA. É bacharel  e licenciado em matemática, especialista em línguas originais da Bíblia (hebraico, aramaico e grego), doutor em divindade pela Faculdade de Ciências Filosóficas e Teológicas do Rio de Janeiro, estudou Hebraico na UFRJ, faz mestrado em Antigo Testamento no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, em São Paulo e é mestrando em Teologia no Newburgh Theological Seminary, em Indiana, EUA. Foi organizador e principal tradutor da opus magnum de Bruce K. Waltke e M. O’Connor, Introduction to Biblical Hebrew Syntax (Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico), lançada em 2006 pela Editora Cultura Cristã. Lecionou Teologia Bíblica, Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Hermenêutica, Exegese, Línguas Originais da Bíblia, Língua Portuguesa e Inglês no Colégio dos Pastores na Obra da Restauração de Tudo (SEMTIMOBRART), no Rio de Janeiro. Foi o 2o. vice-presidente da Academia Evangélica de Letras do Grande Rio.

1. O Colégio dos Pastores na Obra da Restauração de Tudo (SEMTIMOBRART) tem sua sede na Rua Guaiuba, 231, Acari, Rio de Janeiro. Todas as últimas semanas de cada mês, os evangelistas e pastores se reúnem para Estudos Bíblicos e Teológicos Avançados e aulas de línguas, com o objetivo de manter os líderes na Obra da Restauração de Tudo bem informados sobre as principais tendências teológicas no evangelicalismo contemporâneo e para reciclagem e atualização nas disciplinas de Hermenêutica, Exegese do AT e do NT, Teologia Bíblica, Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Línguas Originais da Bíblia, Linguística, Inglês e Língua Portuguesa. Em 2009, há a intenção de implantarmos o ensino à distância (EAD) em site específico com aulas ao vivo e on-demand na nova sede no “Sítio Atos 3.21” .

2. Observe que nem todos os arminianos levam o arminianismo aos seus desdobramentos extremos, ficando com a forma mais branda não extremada do mesmo, não trabalhando suas inconsistências internas. Quando o arminianismo começou a resolver suas inconsistências lógicas internas, ele revestiu a forma extremada defendida por Clark Pinnock e seus confrades arminianos, no livro Grace of God and the Will of Man, que apresenta a verdadeira face do arminianismo.

3. Caso o leitor queira inteirar-se mais profundamente desses assuntos que abordarei de passagem neste artigo, leia os seguintes livros de Clark Pinnock (autor ou organizador), Grace of God and the Will of Man, The Opennes of God, A Wideness in God’s Mercy, Most Moved Mover. Antes, eu o aconselho a vacinar-se com as seguintes respostas dadas a esses escritos arminianos extremados: R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida: Redenção para a cultura pós-moderna (Editora Cultura Cristã); Paulo Anglada, Calvinismo: As Antigas Doutrinas da Graça (Editora Puritanos); Os Cânones de Dort (Editora Cultura Cristã); Thomas R. Schreiner e Bruce A. Ware, Still Sovereign: Contemporary Perspectives on Election, Foreknowledge, and Grace; Bruce A. Ware, God’s Lesser Glory: The Diminished God of Open Theism. Todas essas obras podem ser adquiridas no site www.amazon.com.

4. Ouça os 2 CD’s de Ricardo Gondim sobre Predestinação e o leitor, após ter lido as obras de Clarck Pinnock citadas na nota anterior, verá que Gondim defende os pontos de vista do “open theism” (teísmo aberto, ou teísmo libertário, ou teologia da abertura de Deus), ainda que de um modo velado e disfarçado, pois não cita as fontes sobre as quais se apóia pesadamente. Contudo, é fácil perceber que os pressupostos nada ortodoxos de Gondim nesses CD’s derivam dos teístas libertários, com os quais ele, como arminiano, se simpatiza, além de ser um passo à frente nos rasgos de liberalismo que demonstrou em É Proibido, o que a Bíblia permite e a Igreja proíbe. Mas o leitor deve seguir o seguinte conselho: ouça os CD’s de Gondim assentado e bem apoiado, pois neles Gondim consegue a façanha de reverter a história, qualificando como ortodoxos Pelágio, Armínio e os arminianos em geral, até os do teísmo libertário, dos quais ele é um dos representantes no Brasil, e condenando e qualificando como hereges Agostinho, Calvino e todos os reformados que defendem, como diz ele, o predestinismo. Está pasmado? Vá conferir e depois me responda: Será Gondim o alter-ego (”outro eu”) de Pinnock ou de Richard Rice no Brasil? O tempo nos dirá. Penso que quem tem visto com tão bons olhos a teologia de Charles Finney, como é o caso de Gondim, só pode usar o Soli Deo Gloria dos reformadores no final de seus artigos como um disfarce. Cuidado, leitor! Na verdade, hoje, em 2009, o tempo já nos revelou toda a verdade. A assumida Teologia Relacional de Ricardo Gondim, que o levou à expulsão da Assembléia de Deus, mostra-nos o caráter logicamente preditivo deste artigo quando originalmente escrito em 2003. Era previsível que as posições nada ortodoxas de Gondim, num claro reflexo das mesmas assumidas por seus mentores intelectuais, Pinnock e Rice, viessem a causar desconforto e levaria a uma análise lúcida e um confronto com a ortodoxia protestante centenária, aliás, com a própria Escritura,  e fossem justificadamente condenadas.

5. Segundo Ricardo Quadros Gouvêa em Fides Reformata 2/1, p. 64: “O desconstrucionismo é uma prática de leitura baseada em uma hermenêutica de suspeita em que o texto é entendido a partir da sua auto-desintegração teórica. A desconstrução implica na subversão, na descentralização de qualquer origem perceptível de discursos autoritativos associados a ‘metanarrativas’, isto é, macroestruturas teóricas como, por exemplo, sistemas filosóficos e teológicos”.
6. Pelagianismo – a essência do ensino de Pelágio era sua idéia errônea de que o arbítrio, mesmo no estado caído dos homens, era essencialmente livre da corrupção do pecado e possuía a capacidade em si mesmo de escolher e realizar boas obras, conforme R. K. Mc Gregor Wright, A Soberania Banida, p.23. Também, segundo define este mesmo autor à p. 256, “o semipelagianismo foi uma teologia de acomodação surgida no séc. 5, que ensinava que a graça de Deus não era necessária para o livre-arbítrio começar a agir de modo correto.”

7. PINNOCK, Clark H., A Wideness in God’s Mercy

Pr. Fabiano Antônio Ferreira, D.D.

28
abr

Por que não sou Arminiano? Parte1

   Postado por: Daniel Alves Pena

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O propósito destes dois breves artigos é justificar porque não adoto o sistema teológico que ficou conhecido na história da igreja cristã como arminianismo, nome devido ao seu defensor, Tiago Armínio (1560-1609), em contraposição ao sistema oposto que foi cognominado de calvinismo, em homenagem ao grande reformador francês João Calvino (1509-1564). O presente artigo revelará para o leitor a primeira razão.

O sistema arminiano foi apresentado de forma sistemática à igreja holandesa em 1610, por discípulos de Tiago Armínio, na forma de cinco pontos que sintetizavam os ensinos do professor holandês e alteravam os ensinos dos reformadores, diferenciando deles não apenas em termos de ênfase, mas de conteúdo. Os cinco pontos do arminianismo apresentados na Remonstrance (Representação) são os seguintes: (1) Livre-Arbítrio (ou capacidade humana: o homem, mesmo caído, ainda tem condições de atender por si mesmo ao chamado do evangelho, vindo por seus próprios recursos a arrepender-se e exercer a fé; para os arminiano não existe morte espiritual em termos absolutos; (2) Eleição Condicional (Deus não teria marcado ninguém para salvar-se ou perder-se, mas a eleição antes da fundação do mundo seria baseada na presciência divina, que elegeria aqueles que de antemão previu que iriam arrepender-se e crer, sendo, portanto, o conjunto dos eleitos aberto, sem garantir a segurança de qualquer pessoa antes do encerramento de sua história; (3) Expiação Geral ou Ilimitada (Jesus Cristo não teria morrido por pessoas específicas, mas sim por toda a humanidade, apenas possibilitando a salvação de qualquer pessoa que, dentro da história, creia em sua morte expiatória, embora isso não seja suficiente para garantir-lhe a absoluta segurança, uma vez que a salvação depende da perseverança na fé, e não se sabe com certeza quem irá perseverar até o fim; (4) Graça Resistível (Na concepção arminiana, a graça de Deus pode ser resistida no ato da salvação e, quando o pecador aquiesce a ela, até mesmo depois de “salvo”, o homem pode resistir a Deus de modo a vir a perder-se total e finalmente); (5) Insegurança da Salvação (Ninguém pode garantir que os que são verdadeiramente regenerados vão perseverar até o fim, ou seja, uma pessoa que hoje se presume salva, amanhã poderá vir a perder sua salvação). É bom lembrar que, do sistema arminiano formulado pelos remonstrantes, Armínio discordaria do 5o ponto, pois, apesar de toda a sua incapacidade de entender o que os reformadores ensinaram, jamais duvidou da Perseverança dos Santos.

Em 1618, um concílio internacional constituído de 84 renomados eruditos reformados reuniu-se na cidade de Dort, na Holanda, para analisar e responder aos remonstrantes, formulando, em 1619, após sete meses de discussões em 154 seções, os importantes Cânones de Dort, dispostos em cinco capítulos cujos títulos ficaram sendo conhecidos como os Cinco Pontos do Calvinismo, em homenagem ao grande reformador João Calvino. Esses cinco pontos, pois, são a síntese do ensino reformado, não apenas subscrito por João Calvino, mas por todas as confissões de fé históricas e catecismos reformados, a saber, Confissão de Fé dos Países Baixos, Catecismo de Heildelberg, Segunda Confissão Helvética e Confissão de Fé de Westminster, e, como bem ficou demonstrado nos Cânones de Dort, refletem o verdadeiro ensino das Escrituras reafirmado pelos reformadores e negado pelos remonstrantes.

Os Cinco Pontos do Calvinismo são os seguintes: (1) Depravação Total (Os homens não regenerados, após a queda, são totalmente incapazes de escolher o bem quanto a questões espirituais, visto que estão mortos em delitos e pecados, sendo habilitados apenas por um milagre de ressurreição espiritual, que ocorre quando da regeneração, veja Ef 2:1-10); (2) Eleição Incondicional (Deus, antes da fundação do mundo, em seu propósito eterno e soberano, segundo o conselho da sua vontade, em amor elegeu alguns pecadores para a salvação, independente de quaisquer méritos que neles se observassem, nem tampouco previsão de arrependimento e fé, veja Ef 1.3-12; 2Ts 2.13; Jo 6.37, 39, 6.65; At 13.48); (3) Expiação Limitada (Ao enviar seu Filho para ser morto por causa dos pecados dos homens, Deus, na verdade, tinha em mente propiciar o único meio para que seus eleitos pudessem ser salvos, o que lhes garante eterna salvação, enquanto a expiação arminiana é universal e, contudo, não garante a salvação de ninguém em termos absolutos; a melhor demonstração desta verdade foi feita por John Owen no livro Por quem Cristo morreu?, PES, e eu o aconselho a ler a discussão detalhada ali, inclusive as respostas às objeções a este ensino lógico e claro das Escrituras; Mc 10.45; Tt 2.14; Hb 9.28; At 20.28; Ef 5.25; Jo 17.6, 9; Hb 9.12; Ap 5.9); (4) Graça Irresistível (Os eleitos, dentro do tempo, serão chamados por Deus para sair de suas sepulturas espirituais, isto de um modo irresistível, no ato da aplicação da redenção pelo Espírito Santo (regeneração), uma vez que esta redenção eterna foi-lhes conquistada objetivamente por Deus Filho. O apóstolo Paulo diz Rm 8.28-30: Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. 29 Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. 30 E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. Veja também Jo 6.37, 39, 65; Tt 3.3-6; Ef 2.1-10); (5) Perseverança dos Santos (A salvação do eleito é eterna, uma vez que a mesma graça de Deus que os salvou agirá eficazmente em suas vidas, de maneira que não poderão cair total e finalmente, pois justificação, regeneração e adoção são irreversíveis. É verdadeira a afirmação da Escritura que “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus ” (Rm 8.1). Veja também Jo 10.28-30: “25 Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo disse, e não credes. As obras que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito. 26 Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. 27 As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. 28 Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão. 29 Aquilo que meu Pai me deu é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. 30 Eu e o Pai somos um.”).

Pois bem, ao analisar o que os reformadores ensinaram fundamentalmente, cujo resumo são os Cinco Pontos do Calvinismo, e constatar a total consistência desses ensinos com as Escrituras, não pude fazer outra opção e o meu pêndulo teológico se inclinou irresitivelmente para o Calvinismo.

No dizer de Paulo Anglada, em Calvinismo – As Antigas Doutrinas da Graça, Editora Os Puritanos, SP, 1996, “As antigas doutrinas da graça são um sistema lógico, coerente e harmonioso. Os assim chamados pontos do calvinismo revelam como é possível a redenção eterna de pessoas pecadoras totalmente depravadas, em consequência do pecado original, pelo Deus Triúno: o Pai elege incondicionalmente, o Filho redime objetivamente os eleitos, e o Espírito Santo aplica eficazmente a redenção ao coração daqueles por quem Cristo morreu”. Por fim, Anglada diz: “A doutrina calvinista da perseverança dos santos é a conclusão inevitável e bíblica da obra da redenção. O homem, em seu estado natural, está totalmente depravado – isto é, teve suas faculdades espirituais completamente corrompidas, tornando-se inimigo de Deus, morto nos seus delitos e pecados. Deus o Pai movido pelo seu infinito amor escolheu, antes da fundação do mundo, alguns dentre estes para manifestar a sua misericórdia, elegendo-os para ser santos e irrepreensíveis. Vindo a plenitude dos tempos, o Senhor Jesus Se fez carne, cumpriu a lei e morreu na cruz pelos eleitos de Deus, expiando objetivamente a culpa que lhes fora imputada pelo pecado de Adão. Na época própria, aprouve a Deus chamá-los eficazmente, aplicando soberanamente a Sua graça especial para a salvação, independentemente de qualquer mérito da parte deles. Que absurdo imaginar que, depois de tudo isso, o redimido possa apartar-se totalmente da graça de Deus e perder a salvação!”

Assim, como estou convencido de que esses dois sistemas são os dois pólos em que podemos nos situar teologicamente, de modo que não se pode ser lógica, coerente e biblicamente, arminiano e calvinista, ou uma mistura “calviminiana” que contenha uma porcentagem de um e de outro sistema ao mesmo tempo, segue-se que tive de optar entre um e outro. Ou você é arminiano ou você é calvinista, e não uma mistura desses dois sistemas mutuamente exclusivos. Optei, como não poderia deixar de ser, pelo calvinismo, uma vez que ele reflete o sistema ensinado pelos apóstolos e pelo próprio Jesus. Não me envergonho de estar na companhia dos mais nobres santos da história da igreja, como Agostinho, Lutero, Calvino, John Knox, John Bunyan, John Gill, John Owen, George Whitefield, Jonathan Edwards, Spurgeon e outros. Estou em boa companhia, você não acha?

Agora, quando se fala em arminianismo, o sistema da incerteza, da dúvida, do pessimismo, do medo, da insegurança, só quem sofre dos mesmos problemas que seu articulador é que pode abraça-lo. Só pode ser calvinista quem tem fé suficiente para submeter-se à soberania de Deus e pode aceitar o que as Escrituras ensinam claramente, só os eleitos convictos de sua posição é que podem ser calvinistas.

Por séculos, os arminianos conviveram com seu sistema sem leva-lo aos seus extremos lógicos e, por conseguinte, sem revelar de fato a sua verdadeira face. Os cinco pontos que enumeramos são apenas a ponta do iceberg do arminianismo. Você quer saber o que realmente estava escondido no sistema arminiano e que hoje declaradamente está sendo defendido pelos arminianos que ousaram levar o arminianismo aos seus extremos lógicos? Uma frase só: Open theism (Teísmo aberto)! Sabe o que é isto? No próximo artigo eu explico. Esta será a segunda razão porque não sou arminiano. A ponta de seu iceberg já me afastou dele, e o corpo do iceberg, por certo, me manterá definitivamente no outro pólo, no porto seguro do calvinismo, em excelente companhia. Eu concluo na parte 2 deste artigo.

Por Pr. Fabiano Antônio Ferreira, D.D.
Até a próxima e a paz do Senhor

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SEJA BEM VINDO!
Quero neste pequeno espaço dar as boas vindas ao meu amigo Rev. Fabiano A. Ferreira, um dos grandes ícones desta Obra Bíblica de Restauração. A Apoiort e a nossa Ordem de Pastores liderada pelo colega, pastor Luiz Fernando Máximo Silvério, se sente honrada em saber que um líder dessa envergadura está contribuindo para o enriquecimento do nosso site e da nossa organização. Embora o Dr, Fabiano Ferreira seja ligado a outro segmento desta obra (OPIMOBRART), sua contribuição será um elemento vital para que nossos filiados e amigos desfrutem de muitos conhecimentos, pesquisas e conseqüentemente poderão acompanhar de forma bem atualizada, o que acontece com nossa Igreja nos Estados Unidos da América, pastoreada por este gigante nos conhecimentos Bíblicos e Teológicos. O Dr. Fabiano A. Ferreira irá atender a todas as classes de nossos pesquisadores, pois seu currículo (segue abaixo), já nos deixa  bem seguros em relação a tudo aquilo que almejamos Adquirir. As lideranças da Apoiort esperam com ansiedade a visita deste amigo ao Brasil, a fim de pessoalmente se deliciar com a sabedoria que tem recebido de Deus. O prazer e a satisfação será toda nossa!

Apresentação

Reverendo Fabiano Antonio Ferreira

Reverendo Fabiano Antonio Ferreira

Bacharel em Matemática pela FAHUPE, no Rio de Janeiro, e estudou hebraico na UFRJ.
É aluno do Mestrado em Antigo Testamento no CPAJ. Doutor em Divindade pela FACEFITERJ e mestrando em teologia pelo Newburgh Theological Seminary, Indiana,USA e Especialista em Grego Koiné Hebraico e Aramaico. É professor da Faculdade de Ciências e Biotecnologia da CGADB, no Rio de Janeiro e, a partir de dezembro de 2007, pastoreia a Igreja da Obra da Restauração, em Filadélfia, nos Estados Unidos.
Rev. Fabiano Ferreira foi organizador, tradutor principal e revisor da Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico, de Bruce K. Waltke e M. O’Connor, para o português, publicada em 2006 pela Editora Cultura Cristã de São Paulo.

A igreja em Philadélfia é a primeira das Igrejas na Obra da Restauração de Tudo (WRATCH) nos Estados Unidos. Desde 30 de novembro de 2008, Rev. Fabiano Antonio Ferreira é o pastor senior da Igreja em Philadelphia.
A igreja está muito contente em recebê-lo juntamente com sua família, a saber, sua esposa Missionária Maria Antonia G. Ferreira e seus filhos James Ferreira, Jason Ferreira e David Ferreira.

Oficialmente os trabalhos iniciaram nos EUA em setembro de 2006. Tendo suas raízes no Novo Testamento. Fazendo o caminho de volta através de toda a história da igreja cristã e passando cuidadosamente pela Reforma Protestante do século dezesseis, tentando alcançar o estilo de vida da igreja do Novo Testamento. Considerando-se um produto do repensamento das tendências contemporâneas da igreja evangélica ao redor do mundo à luz da Palavra de Deus a fim de alcançar um Mitte, isto é, um ponto de tensão que sirva como contrabalanceamento entre contextualização e o inteiro ensinamento da Bíblia para a Igreja. É claro que, em comum com as outras igrejas de tradição reformada, a base de sua crença é que não podemos alcançar nossa salvação através da prática de boas obras. Contudo, crendo que o verdadeiro crente deve provar sua fé através das boas obras, especialmente para com os domésticos da fé.
Em breve estudo sobre o uso do véu.
Deus o abençoe!

Rev. Fabiano Ferreira
AS LENTES DO TRADUTOR E DO EXEGETA: UM ENSAIO EM METODOLOGIA EXEGÉTICA APLICADA AO ANTIGO TESTAMENTO COM ESTUDO DE CASO EM JEREMIAS 1.11-12
Leia o artigo PUBLICADO PELA REVISTA FIDES REFORMATA do Rev. Fabiano Ferreira, está em formato PDF e pode ser baixado neste link.