
Rev. Fabiano
Quando ingressei como membro da Obra em 1980, sempre ouvia contar as histórias e feitos dos nossos primeiros pais, dos que foram pioneiros na Obra da Restauração, dentre os quais destaco o Pr. Magno Guanaes Simões e o Pr. Elmir Guimarães Maia. Não tive o privilégio de conhecer o primeiro pessoalmente, mas apenas o segundo, no ano de 1984. Aquele encontro foi algo surpreendente e decisivo para mim. Naquela época, já estava acostumado a ouvir muitas críticas quanto à falta de preparação teológica dos pastores da Obra, e muitas delas infelizmente procedentes, olhando de uma perspectiva meramente humana, e isto produzia certo recalque em mim, até mesmo um sentimento de vergonha. Porém, naquela tarde memorável, o encontro com o Pr. Elmir Guimarães Maia lançou certa luz e esperança na estrada que tinha de trilhar em direção a um futuro desconhecido que me estava reservado.
Naquela tarde providencial, Pr. Guimarães Maia estava no escritório da OPIMOBRART em Acari, Rio de Janeiro, e me recebeu com um sorriso característico e cativante. Já tinham me contado que nossos pioneiros tiveram a oportunidade de estudar teologia nos melhores seminários batistas, principalmente numa época em que esses seminários representavam o que de melhor se tinha em termos de educação teológica. Todas as vezes em que nos acusavam de praticar doutrinas ultrapassadas por causa de falta de instrução em hermenêutica ou por não sabermos fazer a exegese dos textos visto que prescindíamos do conhecimento das línguas originais da Bíblia, eu ficava sem saber o que dizer.
Todavia, o encontro com o Pr. Guimarães Maia foi muito importante para mim, pois estava diante de um pastor da Obra, um fundador, de uma educação teológica até então jamais vista por mim na Obra. Atrás dele, estava uma estante repleta de livros de grande envergadura dentro do cenário evangélico contemporâneo e de outros séculos. Com grande destaque, vi atrás dele grandes comentários bíblicos, como o de John Peter Lange, traduzido do alemão para o inglês, o de Adam Clarke na versão espanhola, e muitos outros que me deixaram abismado. Pensei comigo que “a Obra não poderia ter surgido de ignorância bíblico-teológica. Talvez isto fosse apenas produto de preconceito e ressentimento!”
Em seguida, fui à questão mais pitoresca e intrigante: “E o uso do véu, Pr. Guimarães?” Então, ele pegou a Bíblia e o volume do comentário de Lange sobre 1 e 2Coríntios em inglês e fez uma breve exposição verso por verso, mostrando como até mesmo um comentário bíblico genuinamente exegético não escrito por um pastor da Obra pode ajudar a analisar o texto. Pena que eu pude guardar apenas a linha de argumentação para futuras pesquisas e aprofundamento numa das questões mais polêmicas e controvertidas no meio evangélico. Entretanto, as dúvidas principais sobre a atualidade do uso do véu pelos membros do sexo feminino das igrejas contemporâneas foram esclarecidas naquela palestra.
Por fim, o Pr. Guimarães Maia fechou nossa palestra brindando-me com uma exposição de Tiago 1.12-15 que jamais me esqueci. Hermenêutica, exegese e homilética numa impregnação mútua, visto que, além de intérprete, ele é um exímio pregador da Palavra de Deus. Assim, depois de situar o texto em seu contexto e co-texto, ele fez uma análise minuciosa da perícope (parágrafo), segmentando as orações e realçando detalhes que me impressionaram grandemente. Além disso, fez ilustrações extraídas do Antigo Testamento, como o pecado de Davi, que clarificavam cada etapa do processo de tentação descrito sinteticamente por Tiago. Eu não tinha prestado atenção antes a tudo isso, ou melhor, não possuía as lentes de análise que estavam disponíveis àquele exegeta perito que estava com a Bíblia aberta diante de mim, sempre com foco no texto grego, que ele conhecia muito bem, como demonstrou na prática. Desse encontro, eu concluí: “Não faz sentido acusar nossos pioneiros de ignorância teológica, histórica, hermenêutica ou exegética, diante do que estou vendo. Pr. Guimarães Maia é uma sumidade!” Ele se despediu de mim com uma oração num ambiente que estava impregnado da presença de Deus, a quem ele pediu que abençoasse meu futuro. Confesso que saí daquele escritório com um forte senso de que nada sabia diante de tanta erudição do Pr. Maia e vendo o grande desafio que tinha pela frente. Ainda bem que ele me recomendou à maravilhosa e miraculosa graça de Deus, que é poderosa para fazer tudo infinitamente mais do que pedimos ou pensamos!
Ao me despedir dele, ele me deu muitos bons conselhos. Incentivou-me a continuar meus estudos e, sempre que possível, fazer o que ele fez depois de obter sua formação teológica formal. Orientou-me a adquirir bons comentários bíblicos de caráter erudito e conservador e lê-los, o que equivale a subir nos ombros de gigantes e diminuir muito trabalho na tarefa de interpretação bíblica. Também, orientou-me a obter livros de educação teológica que ensinam ferramentas de análise do texto bíblico (hermenêutica e exegese) e boas obras de teologia bíblica e sistemática, história bíblica e da igreja, línguas originais, etc. Esse foi um direcionamento que revolucionou minha maneira de ver o que de literatura já estava disponível no mercado evangélico, principalmente em inglês ainda, língua que eu já dominava, e mergulhei fundo. Minha biblioteca pessoal cresceu de forma assustadora e me ajudou para minha jornada ministerial que começou em 18/04/1987! Dou graças a Deus por aquele encontro com o Pr. Dr. Elmir Guimarães Maia.
Uns vinte anos mais tarde, por volta de 2004, eu reencontrei o Pr. Elmir Guimarães Maia na casa do Pr. Dr. Valter Miranda de Oliveira. Nessa ocasião tive a oportunidade de conversar com ele e mostrar o meu avanço nos estudos bíblicos, principalmente no campo das línguas originais da Bíblia. Mostrei a obra gigantesca do Dr. Bruce K. Waltke, em inglês, que estava prestes a ser lançada em português pela Editora Cristã de São Paulo, Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico, que saiu em 2006 com suas 784 páginas. Tive a honra de ser o organizador, o tradutor principal e um dos revisores desta magnífica obra que por muito tempo será padrão para os estudos de sintaxe do hebraico bíblico em nível intermediário e avançado em língua portuguesa. Pude também informar-lhe que havia estudado Hebraico Moderno na Universidade Federal do Rio de Janeiro e que estava fazendo Mestrado em Antigo Testamento no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, do Instituto Presbiteriano Mackenzie de São Paulo. Após analisar-me detidamente em nossa palestra, surpreendeu-me a humildade do Pr. Guimarães Maia, confessando-me que, na disciplina de hebraico bíblico, ele poderia ser meu aluno. Jamais pensei em ouvir tal coisa de um homem de Deus da envergadura do Dr. Guimarães Maia, mas ele disse isso por conta do estudo específico, dedicado e contínuo das línguas originais da Bíblia que venho fazendo ao longo desses já 28 anos de peregrinação cristã.
Foram em meus estudos bíblicos posteriores que vim a aprender com clareza que a hermenêutica é disciplina que prescreve os princípios de interpretação dos textos da Bíblia reunindo-os, por exemplo, com base em seus respectivos gêneros literários. Portanto, ela instrui a interpretação e narrativas, poesia, Torah (lei), meshalim (literatura sapiencial – ou de sabedoria, como Jó, Provérbios e Eclesiastes), profecia, evangelhos, atos, epístolas e Apocalipse, sendo bem genérico. A exegese se vale dos princípios postulados pela hermenêutica para fazer a interpretação dos textos. A relação entre a hermenêutica e a exegese, escrevendo de uma perspectiva reformada, é a mesma que existe entre a teoria e a prática.
No estudo da hermenêutica aprendemos como interpretar. Ao fazermos exegese colocamos em prática os princípios aprendidos em hermenêutica e saímos em busca do sentido do texto que pretendemos entender. Por exemplo, se o gênero do texto bíblico é narrativo, então a hermenêutica nos ensina que há uma série de questões que devem ser levadas em conta para que o sentido do texto seja alcançado corretamente. Temos de considerar e analisar a estrutura (se há uso de quiasmos, muito comum desde Gênesis), personagens, narrador, narratário, diegese e discurso narrativo, sintaxe da diegese, tempo, voz e focalização, como os constituintes mais expressivos do texto narrativo.
Em poesia, estudamos os percursos do passar, repassar e externar do mundo do eu lírico do poeta. A poesia surge independente dos elementos objetivos do mundo real que o cerca, porém, reflete em sua forma final uma produção resultante dos efeitos deste mundo sobre sua alma, sobre sua interioridade.
“Caso um poema lírico seja escrito valendo-se de elementos narrativos e objetivos do mundo exterior do poeta, isto serve apenas como um pretexto para que ele expresse um significado apenas simbólico-imaginário do reflexo desse mundo sobre seu estado de alma”[1].
Desta forma, está correta a afirmação de Lotz:
“O verso é o uso da linguagem mais idiossincrático e está sujeito à manipulação individual mais extrema”. [2]
Por conseguinte, ao estudarmos poesia bíblica, devemos estar atentos à forma, principalmente ao recurso muito utilizado do paralelismo, que se torna uma chave para entendermos à forma poética dos escritos bíblicos. O eu lírico extravasa os impactos do mundo exterior sobre sua interioridade. Muito mais frequente que na prosa, ele manipula a linguagem para que ela seja uma fiel expressão do que se passa dentro dele. Até ele mesmo se surpreende com sua produção literária e artística que as mais das vezes o deixa meio embevecido, preso ao fato da criação das formas inusitadas que a poesia exige. Destaque-se, acima de tudo, o forte impacto da inspiração divina sobre a alma desse poeta que singulariza esse modo grandemente idiossincrático do uso da linguagem. Ele dialoga com Deus, consigo mesmo, com seus semelhantes e com sua congregação, de modo que a produção final está repleta de seus próprios sentimentos. Essa forma idiossincrática de produção textual é sobremaneira criativa e não poderia ser diferente. Ela não pode prescindir do uso exuberante de formas de expressão inusitadas, de figuras de palavras e de pensamento em grau altamente elevado. É certo que tanto a poesia quanto os textos em prosa estão repletos dessa forma de verbalização idiossincrática, mas a poesia a usa de modo preferencial por conta de sua própria natureza. O eu lírico se identifica com este tipo de uso da linguagem. Portanto, dispensa dizer que a forma poética merece a devida atenção por parte do intérprete.
A propósito, o presente ensaio sobre o uso do véu é uma análise de um texto pertencente ao gênero epistolar. Trata-se da análise de um texto predominantemente escrito em prosa. Ele é uma reflexão e aprofundamento sobre a palestra que tive com o Pr. Elmir Guimarães Maia, aludida acima, porém, teve mesmo como elemento impulsionador e catalítico um desafio do Pr. Silas Malafaia que recebi num debate na Rádio 93 FM. Em 1999, eu estava participando de um debate com ele e, sem que ele me conhecesse, surgiu por parte do moderador a proposta inusitada de termos um debate sobre o uso do véu na igreja hoje. Eu iria defender a tese da contemporaneidade do uso do véu pelos membros do sexo feminino da igreja. Não sei que posição ele tomaria, uma vez que o debate apenas abordaria a questão “no campo das idéias” e preso ao que o apóstolo Paulo ensinou a esse respeito. O ônus maior pesava sobre mim, ao que parecia, de ter de apresentar argumentos convincentes em favor da contemporaneidade do uso do véu pelas mulheres nas igrejas evangélicas. Porém, infelizmente, no dia do debate o Pr. Silas Malafaia telefonou para a emissora e justificando que não poderia estar presente naquele debate por motivo de força maior. A expectativa era enorme da parte dos ouvintes, mas lamentavelmente esse debate não se concretizou. Foi adiado sine die e até hoje não se realizou.
Todavia, o trabalho de pesquisa que escrevi sobre 1Co 11.1-16 na época foi publicado no ano seguinte, em 2000, e agora eu disponibilizo a todos os que acessam o site da APOIORT para que possam lê-lo e considerá-lo. Agradeço de coração ao Pr. Eliélberth Falcão, presidente da APOIORT, meu grande amigo e cooperador no Reino de Deus, pela oportunidade e incentivo – como também a muitíssima paciência -, de disponibilizar esses ensaios com toda a liberdade de expressão de meu pensamento teológico, que sempre procuro construir com base na mais sólida exegese, usando todos os valiosos instrumentos que me estão disponíveis.
O texto original que escrevi, na presente versão revisada, aparece com vários acréscimos de elementos que julguei essenciais e supressões de outros que julguei não tão importantes. Além disso, depois de ler outros autores que não constaram de minha pesquisa original, e que considerei darem uma contribuição positiva para a elucidação de certos aspectos do texto, ainda que deles discorde em alguns pontos, pude enriquecer a abordagem deste tema tão polêmico e crucial. O leitor só terá a ganhar se lê-lo para considerar e ponderar com reflexão e espírito sereno. Tento ler o apóstolo a partir de seu próprio contexto histórico e, em seguida, empreendo fazer uma leitura do texto para nossos dias. Com o texto grego aberto, proponho-me responder às perguntas: 1) O que o apóstolo quis dizer para os seus leitores originais e o que o motivou a escrever o presente texto? 2) Será que as exigências feitas pelo apóstolo Paulo não estavam condicionadas culturalmente? 3) Caso a pergunta 2 tenha resposta positiva, o texto apenas diz respeito a regulamentações válidas tão somente para aquele contexto específico, não sendo uma questão relevante em nossos dias, mas, se for negativa, então cumpre-nos saber o que fazer com as exigências do texto na igreja evangélica contemporânea.
A decisão, como sempre, recai sobre cada um de nós individualmente diante deste e de outros textos da Escritura. A complicação para nós reside no fato de termos de justificar perante nossa consciência e perante Deus naquele grande dia a nossa posição e o que nos levou a adotá-la. Seremos confrontados, para todos os efeitos práticos, não com o que disseram que o texto diz, mas com o que de fato Deus quis dizer através dele. Isto nós ouviremos da boca de Deus. Poderemos estar certos ou errados. Portanto, a busca da descoberta da intenção do autor, que é por sua vez o reflexo unívoco e inequívoco da intenção do Espírito Santo que o inspirou, não pode ser uma questão irrelevante para nós no que diz respeito a qualquer texto da Escritura. Como este é um dos textos mais polêmicos na história da interpretação cristã das Escrituras, meu convite ao leitor é para que reconsideremos mais uma vez o que o apóstolo Paulo diz em 1Co 11.1-16, visto que este texto também carrega consigo fortes implicações sobre outras questões polêmicas, como, por exemplo, a ordenação feminina. Nossas práticas contemporâneas não justificam nossa interpretação das Escrituras, mas, ao contrário, as Escrituras é que devem justificar nossas práticas enquanto igreja. Será que o que praticamos hoje tem pleno respaldo das Escrituras ou estamos impondo nossas práticas às Escrituras, a despeito do que ela venha a nos ensinar? Urge-nos responder a todas estas questões.
Não obstante, precisamos deixar clara nossa posição de que o uso do véu pelas mulheres da igreja jamais foi divisado por nós dentro de uma perspectiva soteriológica estrita, como algo imprescindível à salvação, haja vista nossa posição explicitamente reformada no tocante ao posicionamento soteriológico. De fato, esta questão tem mais a ver com um posicionamento pós-soteriológico, como algo que deve ser decidido pelos salvos, coletiva ou individualmente. Se minha análise estiver correta, então a não observação do princípio bíblico torna-se desobediência e afeta a comunidade cristã local que decide pela não observação do ensino bíblico, ou membros cristãos individuais, apenas em termos de consciência, posicionamento diante da autoridade da Escritura e, em última análise, no que se refere à complexa questão do galardão dos eleitos. Se minha análise e a de outros que comigo concordam estiver errada, então, pelo menos tivemos a oportunidade de apresentar uma outra perspectiva de um texto do NT que nada tem a ver com nossa vivência cristã contemporânea. Pelo menos, nossa exegese nos dará a desculpa diante de Deus de que erramos por excesso em face ao nosso temor de não ter dado apreço a uma pequena porção do cânon do NT que, na contramão da história, quase toda igreja havia desprezado. Que o Grande Juiz nos tenha por escusados por pecarmos por excesso de temor à autoridade de Sua Palavra.
Rev. Fabiano Ferreira
Filadélfia, Pensilvânia, EUA
Inverno de 2009.
[1] Silva, Vitor E. A., Teoria da Literatura, Coimbra, Portugal: Livraria Almedina, p. 582-596.
[2] O’Connor, M. Hebrew Verse Structure, Winona Lake, Indiana: Eisenbrauns, 1997. p. 13.




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